Por Roberto Junior

Nascido em 17 de Outubro de 1907, José Sampaio de Macedo deixou sua marca na história do Brasil e principalmente do Ceará, era um homem de personalidade forte e graças a ela, muitas histórias, a maioria hilárias, foram retratadas ao longo dos anos, muitas delas vivenciadas no Crato, onde já aproveitando a aposentadoria das missões aéreas, passava uma boa parte do dia a prosear na Praça Siqueira Campos, que era o principal ponto de reunião e conversa da “Aristocracia Cratense”, que discutia de um tudo, mas vamos ao que interessa: Sua influência na aviação nacional e regional.

“Zé do Crato” como ficou conhecido, começou cedo sua carreira e fez grandes feitos, mudou a trajetória de cidades como Juazeiro, Crato e a capital do estado, Fortaleza. Um dos mais memoráveis foi à inauguração da rota: Rio de Janeiro – Fortaleza, num monomotor Wacco CSO 21, uma viagem para mostrar o potencial do recém – lançado, Correio Aéreo Militar e que depois se tornou o Correio Aéreo Nacional. No avião seguia também, Nelson Lavanère Wanderley, que mais tarde ascenderia ao posto de Ministro da Aviação no governo de Castelo Branco. O avião levantou voo da capital fluminense no dia 15 de Fevereiro de 1933 e fez as seguintes escalas: Belo Horizonte, Pirapora, Januária, Bom Jesus da Lapa, Barra, Xique-Xique, Remanso, Juazeiro da Bahia, Petrolina, Juazeiro do Norte, Iguatu, Quixadá e por fim a capital da terra da Luz.

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Wacco CSO 21 usado na rota Rio de Janeiro – Fortaleza

Na região do Cariri, esses pousos tiveram grande importância, seria a primeira vez que nossas cidades veriam uma máquina voadora aterrar em suas paragens, em Juazeiro do Norte, ele conversou com o Padre Cícero, já bastante velho e doente, sobre a importância de um serviço como o CAM, segundo Zé Sampaio, o padre era “Padre Cícero era um homem tolo, mas tinha mania de grandeza e parecia em certos momentos, uma pessoa não muito boa do juízo” como ele disse a Folha de São Paulo na década de 80, citou ainda que o sacerdote escrevia cartas a Adolf Hitler, fatos que a história já confirmou como equívocos por parte do Brigadeiro, o que sabemos é que as ideias difundidas foram acatadas e a aviação no Cariri se desenvolveu bastante depois desse primeiro contato, os serviços postais de desenvolveram e nosso campo de pouso eram movimentados, tendo também as aeronaves da Missão Batista operando na localidade.

Em 1950 a FAB despertou interesse junto a USAF pelos B-17, que seriam um salto de tecnologia na combalida Força Aérea Brasileira, e adivinha quem ficou responsável por trazer essas aeronaves da California? Ele mesmo,via Chile, Zé do Crato traria as aeronaves para o Brasil, que pousaram em solo pátrio em Abril de 1951, na Base Aérea do Galeão no Rio de Janeiro. Enquanto a papelada de compra não era finalizada, ele ficou que nem pinto no lixo, visitando todos os estúdios, conhecendo os grandes nomes de Hollywood e acompanhando as filmagens de clássicos da aviação na época. Outro feito foi o alistamento voluntário para combater o famigerado, Lampião, no raso da Catarina na Bahia, em 1934, aproveitando as vantagens estratégicas e de visão, o cratense deu muito trabalho ao cangaceiro, comandando 54 homens, fez diversas incursões, mas terminou voltando pra casa com um tiro no tornozelo, empreitada que depois definiu da seguinte forma: “Foi besteira minha, coisa da juventude”. Não vi Lampião, nem de longe. Ouvi os gritos dele dizendo: “Teus dias estão contados, Tenente Macedo”. Inaugurou e marcou todos os Aeroportos da Rota do São Francisco em Minas Gerais. Participou da

Revolução de 1932 em São Paulo, onde no comando das precárias aeronaves da época, defendeu os legalistas. Era acusado de ter bombardeado o, Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, que por ser um movimento apadrinhado o Padre Cícero, causava a antipatia do aviador, mas a essas acusações ele rebatia dizendo: “Que nada! Eu lá joguei bomba naqueles fanáticos! O que eu fiz foi dar uns voos rasantes, dizer muitos desaforos e jogar uns panfletos. Naquele tempo os aviões nem carregavam bombas. Além do mais a topografia do local não permitia voos para bombardeamentos”, mas os fatos contam outras versões, não se sabe do envolvimento do Zé Sampaio, uma vez que a história surgia como provocação de seus amigos cratenses, mas aquele episódio na Mata dos Cavalos entrou para a história como o primeiro bombardeamento do Brasil.

Em 1951, sofreu a “queda pra cima”, que era quando um militar era promovido a um alto cargo e logo era encostado na reserva, depois de tantos feitos e honrarias, depois de ter sido o primeiro comandante da Base Aérea de Fortaleza e de ter impedido um dos maiores empreendimentos que os americanos fariam no setor de Aviação da capital, o Mucuripe Field, que usando em sua defesa, os gringos diziam ser o “maior aeroporto da América latina”, Zé Sampaio, descansou enfim e foi cuidar da terra, plantar e colher, uma das coisas que ele mais gostava de fazer. Na Fazenda Parelha, em Quixeramobim, o aviador ficou durante 3 anos, sentindo saudades de casa e do seu povo, Zé, voltou ao Cratinho de Açúcar e lá foi viver a moda cratense, onde já era bastante conhecido pelas manobras acrobáticas sobrevoando o centro daquela urbe e pelo triste fato, de quando num pouso naquela cidade, o primeiro de todos, uma tragédia veio a acontecer justamente com um de seus parentes, que se aproximando em demasia da aeronave, teve a vida ceifada pela hélice.

A vida no Crato

Regressando ao seu Cratinho, o brigadeiro comprou as terras do Sitio Fernando e lá foi plantar cana, virando um dos grandes produtores da região, que tinha como concorrência o espetacular, Engenho Tupinambá, na cidade de Barbalha. Lá se juntou aos seus irmãos, Otácilio e Melito, e juntos faziam parte da famosa “canalha”, grupo formado por amigos na Praça Siqueira Campos, que tinham como uma das maiores diversões, sacanear o já cansado, Senador Epifânio, homem de grande importância na politica regional e nacional, mas que estava fora de ação devido sua saúde mental que não ia tão bem. Conta-se que o brigadeiro não falava diretamente com, Melito, um dos seus irmãos, as vezes estavam juntos no mesmo banco, mas só se falavam com um interprete. Nas eleições de 1950, ele torcia pela vitória do Eduardo Gomes, mas como sabemos, Getúlio ganhou e ele teve que dar uma grade de cerveja ao ganhador da aposta, mas mandou só a grade e os vasilhames, o liquido derramou, pra não dar o gosto ao triunfante e se aproveitando de uma das brechas do trato. Outro causo foi o da visita do então presidente do Brasil, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. Zé Sampaio já em trajes civis e na condição de dono de engenho ignorou a segurança e foi direto ao encontro do presidente, logo foi reconhecido por Castelo, que disse:

“Zé do Crato, o que faz por aqui” e ele de pronto respondeu “Tô aqui, vendendo cachaça sem nota e dando emprego a delegado, juiz e advogado”.

José Sampaio é o terceiro da esquerda para direito ao lodo do presidente Castelo Branco - Foto FGV

José Sampaio é o terceiro da esquerda para direito ao lodo do presidente Castelo Branco – Foto FGV

 

Foi assim nessa vida tranquila que ele passou seus anos restantes, até 1992, quando aos 84 anos, deu seu último suspiro em Fortaleza-CE, para onde foi em busca de tratamento. Voltou ao Cariri em aeronave da FAB, comandada pelo então comandante da Base Aérea de Fortaleza, Coronel Aviador Cláudio Queiroz.

 

Fontes: Só no Crato (Blog)/Títulos de biografia.