Avianca contrata 13 mulheres para o cargo de piloto, um projeto para quebrar barreiras na aviação brasileira.

Na onda do empoderamento feminino e busca por igualdade entre pessoas e gênero, a Avianca Brasil, deu inicio a um projeto para contratar mais mulheres como pilotos de aeronaves. Como sabemos, no mundo todo o numero de mulheres não chega a 3% no cargo de Cmte de aeronaves.Essa realidade tem muito ainda para mudar, precisamos de condições mais igualitárias no mercado de trabalho e na convivência humana.

Como bem diz, Frederico Pereira da Avianca em seu artigo, uma quantidade pequena que nada deveria ser de diferente na rotina de uma empresa, mas com toda essa desigualdade entre quantidade de homens e mulheres no comando de aeronaves o projeto chama atenção.

Estamos publicando na integra o artigo do Frederico Pedreira, Chief Executive Officer da Avianca Brasil, para entenderem melhor o projeto.

A Avianca Brasil ficou mais diversa e, por isso, mais forte 

Frederico Pedreira

Frederico Pedreira

Chief Executive Officer at Avianca Brasil

 

Na segunda-feira passada, a Avianca Brasil contratou 13 mulheres. Nada demais, certo? A contratação de um grupo ― pequeno, aliás ― de mulheres não deveria ser em nada diferente na rotina de empresa nenhuma. Mas, neste caso, foi. Um processo que levou cerca de um ano, envolveu dezenas de pessoas e diferentes setores da companhia e que, ainda agora, depois de implementada a primeira fase, não alcançou unanimidade de opiniões.

Era setembro de 2016 quando fui surpreendido por uma informação: na empresa que eu comandava há nove meses, somente 1,6% dos pilotos eram mulheres. Intrigado com essa disparidade, fui checar os números das outras empresas de aviação do país. A participação das mulheres nos cockpits variava de 1% a 3%. Não éramos o menor número, mas nem o melhor. Nos Estados Unidos a média é de 5%. Mas o Japão chega a 5,5% e a Finlândia a 12%. (1)

Cresci e vivi até os 17 anos com minha mãe e duas irmãs; era o único homem em uma casa em que todos se tratavam e eram tratados de forma igualitária. Dividíamos as mesmas tarefas e responsabilidades. A forma como fui educado criou em mim uma convicção muito profunda de valorização da igualdade, não apenas entre os gêneros, mas entre seres humanos de uma forma geral.

Em uma companhia aérea, a posição de piloto é, obviamente, crucial. É ele quem tem nas mãos a segurança dos passageiros. De certa forma, é a posição com mais responsabilidade na empresa, mais do que a de qualquer outro executivo. Foi por esta razão que, ao ler as planilhas, ficou claro para mim que algo tinha de mudar ― e que não era algo que estava apenas ao meu alcance fazer, mas que eu tinha a responsabilidade de provocar. No entanto, o caminho foi bem mais difícil que o esperado.

O primeiro desafio se colocou quando apresentei o conceito de, deliberadamente procurarmos, selecionarmos e recrutarmos um time de mulheres para pilotar nossas aeronaves.

Argumentos e críticas vieram de todos os lados, tanto de homens como de mulheres: de que deixaríamos de recrutar candidatos mais experientes para priorizar um gênero, de que por esta razão teríamos que investir mais tempo e dinheiro em treinamento, de que o time atual de pilotos talvez não recebesse de forma positiva a ideia, de que as próprias candidatas poderiam sentir-se desconfortáveis com o processo, de que mulheres não necessitam de tratamento especial para ter sucesso. Questionaram-me se eu não estaria promovendo uma discriminação. Foram necessárias várias reuniões e muita discussão para chegar a algum consenso de que a iniciativa seria positiva.

O desafio seguinte foi encontrar as nossas futuras pilotas. A aviação comercial ainda atrai menos mulheres do que homens. Entre os motivos que poderiam explicar isso, além das barreiras históricas e culturais, há uma questão financeira. A formação de um piloto é muito cara e demorada. Entre o curso teórico e os voos de preparação, até se chegar a uma companhia aérea, vão-se anos e algumas dezenas de milhares de reais ― e todos nós conhecemos as estatísticas: no Brasil, as mulheres ganham, em média, 24% menos que os homens, mesmo representando 51,5% da população (2), e ainda hoje carregam com maior frequência do que homens a carga da dupla jornada de trabalho.

O fato é que os aeroclubes continuam sendo ambientes majoritariamente masculinos e isso se reflete tanto na aviação civil, como na militar. Mesmo que em 2016 o Brasil tenha colocado a primeira pilota no comando do avião Presidencial, mulheres não são comuns nos aviões da Força Aérea.

Para terem uma ideia, dos 1.683 currículos de pilotos recebidos e cadastrados aqui na Avianca Brasil, apenas 5% eram de mulheres.

Veio, então, um dos maiores dilemas que enfrentamos com a iniciativa: hoje, pelos nossos próprios critérios, são necessárias 500 horas de voo para pilotos ou pilotas serem considerados no processo de seleção. No caso do aproveitamento interno, ou seja, quando um colaborador nosso de outro departamento deseja migrar para o voo, pedimos 300 horas. A experiência requerida está acima da média mundial, de aproximadamente 200 horas, e em conformidade com os padrões de segurança exigidos pela regulação.

Sem que houvesse unanimidade na decisão, adotamos a política usada para nossos funcionários já contratados, de 300 horas. Defendi que precisávamos, sim, fazer regras específicas para esse projeto, pois essa seria uma transição que não ia acontecer naturalmente. Para se romper o status quo, transformar a realidade da Avianca Brasil e a cultura do setor aéreo e do mercado de trabalho, precisávamos ser protagonistas, ter determinação e até empreender alguma luta. A inércia mata qualquer tentativa ou intenção. (3)

Conseguimos dar um primeiro passo, graças a um excelente trabalho de equipe entre os times de Recursos Humanos e Operações de Voo. As 13 pilotas  selecionadas iniciaram um processo de treinamento intenso que irá durar seis meses. Quando terminarem, terão o mesmo nível de excelência de qualquer piloto no comando de um dos nossos aviões e farão parte de um time responsável por transportar 11 milhões de pessoas por ano. Mas ainda há muito esforço pela frente.

Diversidade como fonte de criação de valor

Acredito profundamente que a diversidade em uma empresa é uma fonte importante de geração de valor. A diversidade em sua concepção mais ampla: de gêneros, idades, etnias, religiões, orientações sexuais, status socioeconômicos, formações, visões políticas, histórias de vida, apenas para citar algumas. Ela estimula a criatividade, a exposição de novas ideias, opiniões e pontos de vista, produzindo inovação constante. Sem visões diferentes e divergentes seria mais difícil questionar o que fazemos no nosso trabalho e como o fazemos – e muito mais complicado mudar para melhorar.

A linha de raciocínio inversa conhecemos: o chamado “groupthinking”, pensamento de grupo, quando profissionais de perfis e ideias semelhantes se agregam com o desejo de estabelecer harmonia e conformidade dentro da corporação. Essas pessoas defendem a minimização de conflitos, buscando consenso, sem analisar criticamente outros pontos de vista. Isolam-se de influências externas e, muitas vezes, da própria realidade. Por isso, frequentemente, incorrem em processos de decisão disfuncionais.

Um primeiro passo

Tenho muito orgulho em destacar que, hoje, a Avianca Brasil tem a maior proporção de pilotas entre as aéreas nacionais: 5%. E isto é só o começo. A partir do pontapé inicial, queremos um programa contínuo, voltado à atração, contratação, engajamento, desenvolvimento e retenção de mulheres na tripulação técnica, visando ampliar a igualdade na companhia. Estamos desenvolvendo parcerias importantes para nos ajudar.

Volto a ressaltar: o processo de contratação das 13 novas pilotas não foi fácil e nem unânime, nem tem pretensões de ser perfeito e isento de críticas. Mas o meu compromisso pessoal é continuar trabalhando proativamente para melhor equilibrar os índices entre os diferentes grupos de pessoas que integram a nossa companhia. Não apenas porque é o correto a fazer, mas porque sei que isto criará mais valor para todos os stakeholders, sejam eles colaboradores, passageiros, acionistas ou parceiros.

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